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A descentralização é um tópico comum no mundo crypto e é de fato um dos principais fundamentos para se usar um software distribuído — em vez de companhias, bancos ou governos — para gerenciar redes de ativos. O Bitcoin foi o pioneiro da abordagem proof-of-work, com computadores (e depois máquinas de mineração especializadas) resolvendo equações complexas para dar segurança à rede, e recebendo uma porção de novas moedas proporcionalmente à sua participação. Isso levou a toda uma seleção de moedas globais cujo suprimento é teoricamente acessível a todos, reduzindo os medos da centralização do suprimento de dinheiro e o risco de manipulação que vem com ela — principal crítica aos bancos centrais. É importante olhar para os diferentes suprimentos de moeda, e para como os seus modelos de distribuição funcionam, para entender melhor a descentralização das criptomoedas.

Muitas moedas têm um suprimento mais centralizado do que anunciado

Moedas proof-of-work com um lançamento público bem divulgado são geralmente consideradas descentralizadas, já que qualquer pessoa pelo mundo poderia teoricamente ter a oportunidade de participar na mineração, significando que o suprimento é provavelmente bem distribuído. No entanto, sob um exame mais cuidadoso, muitos projetos acabaram com uma distribuição muito menos diversa do que anunciado.

Litecoin’s distribution

A Litecoin, em particular, é uma das criptomoedas mais antigas, datando de 2011. Um período de sete anos para distribuição tende a implicar que o suprimento foi bem distribuído. No entanto, de acordo com dados do CryptoID, meros 10 endereços contêm praticamente 15% do suprimento de moedas, e as 100 maiores carteiras possuem praticamente metade de todas as moedas criadas. Isto pode ser por conta do interesse e desenvolvimento limitados da moeda nos anos anteriores a 2017, fazendo com que menos participantes no ecossistema acumulem mais.

Um grau de centralização da distribuição deve ser esperado em moedas mais novas, como no caso do PIVX. No entanto, neste caso em particular o suprimento está extremamente concentrado, com os 10 maiores endereços possuindo praticamente dois terços do suprimento inteiro, metade dos quais permanecem em um único endereço. Isso é especialmente problemático porque o PIVX é uma moeda proof-of-stake, o que significa que novas moedas só são criadas para aqueles que já possuem algumas para começar. Além disso, o PIVX tem um modelo de governança e tesouraria, com os proprietários de moedas votando em decisões de desenvolvimento e distribuição de fundos para projetos, dando consequências muito além da simples possessão de fundos para essa distribuição extremamente centralizada.

PIVX’s distribution

Casos similares acontecem com o NEM e SmartCash. Praticamente metade do suprimento do NEM permanece nos 50 maiores endereços, com a maior parte disso contida nos top 15. O SmartCash tem praticamente metade do seu suprimento em um único endereço, e 75% nos 25 maiores endereços. A maior parte desses projetos são frequentemente apresentados como competidores ou alternativas para criptomoedas descentralizadas, enquanto permanecem firmemente sob o controle de algumas entidades.

Distribuições descentralizadas parecem estar ficando menos populares

Enquanto a mineração via proof-of-work de uma moeda do zero é o modelo original das criptomoedas e tem se mostrado efetivo por praticamente uma década, a sua habilidade de manter a segurança de uma rede descentralizada foi investigada recentemente, assim como o seu custo energético. Num nível mais prático, um modelo puro de mineração proof-of-work com uma distribuição justa e uniforme leva anos para se estabelecer. Isto dificulta muito a venda das moedas em casas de câmbio e o crescimento acelerado da capitalização de mercado. Além disso, uma moeda minerada de maneira justa provavelmente não vai produzir valor suficiente logo de início para que seja possível sustentar operações pagas de desenvolvimento só com mineração, tornando os modelos de pré-mineração e ICO mais atrativos neste quesito.

Por conta disso, muitos ativos digitais populares hoje empregam modelos de distribuição diferentes. O setor lotado de moedas com a maior capitalização de mercado tende a incluir muitos projetos mais novos que estão empregando um modelo diferente — e mais centralizado — do que o de moedas como o Bitcoin popularizaram. Filtrar os rankings de mercado exluindo moedas não mineráveis elimina muitos dos que são considerados os principais atores do setor. Conforme menos projetos antigos de criptomoedas forem sobrevivendo nos top 10 com o decorrer dos anos, maior deverá ficar a porcentagem de moedas pré-mineradas e crowdsales nas top dez.

Apesar do início estranho, a distribuição da Dash está entre as melhores das criptomoedas

A Dash foi lançada (primeiro como Xcoin, logo após mudando para Dasrkcoin) como muitas moedas proof-of-work, minerada a partir de um suprimento inicial de zero por qualquer pessoa que estivesse minerando durante o lançamento. No entanto, devido a um bug no código da Litecoin (de onde a Dash originalmente fez o fork), entre 10 e 15% do suprimento inteiro da moeda foi emitido durante as primeiras 48 horas para os mineradores iniciais antes que o bug fosse consertado. Devido a essa pesada distribuição inicial, questionamentos foram feitos sobre a descentralização do projeto.

No entanto, os dados mostram uma figura muito melhor hoje. Em termos de USD, a Dash tem uma centralização de riqueza bem menor que a maior parta das grandes moedas. Em termos de quantia absoluta, os 100 maiores endereços contêm menos de 15% do suprimento total (em comparação, os 10 maiores endereços da Litecoin contêm uma porção semelhante), e os top 1 000 endereços contêm menos de 30%. Isto põe a Dash em uma posição melhor quanto a distribuição do que alguns dos projetos mais antigos e respeitados, apesar de ter somente quatro anos de idade.

Dash’s distribution

Isto pode ser por conta de vários fatores. Primeiramente, a distribuição inicial fez com que o mercado fosse inundado com moedas baratas, muitas das quais estavam em casas de câmbio que foram posteriormente hackeadas, dispersando o suprimento restante. Além disso, por causa do sistema de tesouraria que paga desenvolvedores e outros contratantes todo mês, muitos detentores de moedas precisam liquidar seus fundos regularmente para pagar gastos e compltar seu trabalho, em vez de simplesmente segurá-las no longo prazo. Finalmente, o foco da Dash em ser dinheiro do cotidiano leva a um uso muito mais frequente de fundos para vários comerciantes, em vez de limitado a grandes casas de câmbio e os poucos especuladores que as usem.

Dados transparentes na blockchain mantêm a anonimidade, mas permitem que tendências sejam inferidas

Uma das principais proposições de valor das criptomoedas como originalmente concebidas era sua pseudonimidade, que identifica endereços e transações por meio de assinaturas digitais criptográficas, mas deixa de fora qualquer ligação ostensiva com a identidade de seus usuários. Assim, a propriedade sobre o suprimento de uma moeda não pode ser provada sem informações suplementares de identificação, geralmente compartilhadas voluntariamente. Portanto isso quer dizer que, em teoria, um único grupo ou indivíduo poderia possuir ou controlar o suprimento inteiro da moeda, e simplesmente separá-lo em vários endereços e em atividades na rede que escondam isso.

No entanto, a transparência radical do registro público pode permitir que bastante seja inferido. Da distribuição do suprimento inteiro da moeda, tanto dos endereços nos quais reside quanto o tamanho médio de distribuição, pode-se inferir uma propriedade aproximada. Enquanto analisar uma blockchain como a Dash não pode dizer com certeza quem tem o que, pode dar um senso maior da distribuição da moeda, e da descentralização do seu suprimento. Isto é particularmente importante quando se leva em conta fatores como participação e propriedade, habilidade do preço ser manipulado, e descentralização de elementos que requerem o proof-of-stake dentro da rede.